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BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, Homem, de 36 a 45 anos



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ducentésimo octagésimo segundo dia - 20 anos

Ontem eu completei 39 anos.

Acordei com uma forte dor na coluna, que, mais do que um sinal da idade, é um sinal de que não estou dormindo no colchão certo. Tá na hora de comprar um colchão de molas.

Mas aniversário é sempre aniversario e é data de lembrar certas coisas, principalmente que, perto do meu aniversário de nascimento, há outroa aniversários que considero importantes pra mim (e olha que aqui nem estou falando dos aniversários da família, que são muitos).

No dia 6 de agosto (aniversário de meu irmão Danilo), fez 20 anos que conversei com Celso pela primeira vez. Apesar de já ver Celso pela faculdade de Arquitetura desde dezembro de 1985 (quando fizemos, na mesma sala, o teste de habilidade específica para o curso), só tive coragem de falar com ele no dia 6 de agosto de 87, dia do segundo teste pro III Curso Livre da UFBA. Este aniversário é importante pois que Celso é meu melhor amigo e é bom completar 20 anos de amizade.

Já hoje, dia 10, faz 20 anos que começou o tal Curso Livre. Tanto eu quanto Celso passamos e, dentre os colegas, fiz vários amigos queridos. Mas o mais importante é que, naquele dia 10 de agosto de 87, eu estava definitivamente dando o rumo que eu queria na minha vida.

Quando, em 88, eu decidi que faria Escola de teatro, encontrei no ônibus uma ex professora do meu Curso Livre (que gostava muito de mim) e ela me disse que não achava que eu tinha o perfil pra fazer a Escla, que eu deveria continuar em psicologia, que a carreira exclusivamente artística demandava certos esforços, certas abdicações, que ela não ahava que eu fosse capaz. "Se fosse Teresa", dizia ela, referindo-se a Tereza Araújo, uma atriz brilhante e pessoa iluminada do nosso Curso Livre, "Se fosse Tereza, eu diria, faz sem medo. Tereza tem o perfil. Você, eu não sei."

Era interessante notar, na fala da professora, a velha questão do talento verus a vocação. Para Hebe, a professora, eu tinha o talento. Ela gostava de mim enquanto ator. Mas ela achava que eu não teria a vocação de passar por perrengues econômicos, de viajar sem infra pra se apresentar no interior, arrer teatro que não tem faxineiro, etc.

Quando ela me disse aquilo, verdadeiramente preocupada, eu só pensava: eu posso. A minha vontade de ser artista foi muito maior do que o medo de não dar certo. E acredito que isso foi um dos motivos que fizeram dar muito certo. Ser artista, como diz Buarque, "é comer um fiapo, é vestir um farrapo". Passei minha fase de só ter dinheiro pra comer sardinha. Passei minha fase de não poder comprar uma roupa decente. Passei minha fase de achar que precisava ter um emprego público (e isso foilogo ali). Mas nunca pensei em desistir.

Eu não vou desistir.

Apesar de saber que a minha vida vai ser marcada por muitas mudanças, já que os números apontam pra isso, os astros apontam pra isso, e toda psicologia, todo texto religioso que leio me ensinam que é preciso encarar as mudanças, apesar disso, apesar de saber e tentar me preparar pra encarar com alegria essas mudanças, eu sei que eu não vou desistir. Eu sou um artista, não tem jeito. E isso é uma dádiva e uma maldição. Ao mesmo tempo. E não tem como sair de mim.

Eu sou um artista.

Eu sou um artista e não uma gaivota. (Leiam Tchekov)

Ou, sim,  uma outra gaivota, a pop Fernão Capelo, querendo voar mais alto, querendo se diferenciar das outras gaivotas, como todo artista quer se diferenciar. Eu sou um artista, eu sou uma gaivota, eu sou um mutante. Faz vinte anos.


E Tereza continuou atriz. Mas entrou e se formou em Psicologia. Mora agora na Inglaterra.
E fez vinte anos também que levei meu primeiro soco na cara. Mas isso é outra história.

Escrito por Claudio às 04h48
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