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Escrito por Claudio Simões às 06h24
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ducentésimo nonagésimo segundo dia - a linha e o linho

Sábado, acordei com minha mãe me telefonando, dizendo que ia pra emergência do Hospital Espanhol, perto daqui de casa. Ela mora quase ao lado de um outro hospital, mas não gosta de lá. 

Levantei meio atordoado, tomei banho, comi duas fatias de pão com um copo de leite de soja e fiquei esperando meu irmão passar com ela pra irmos pro hospital. Entramos no hospital às 4 da tarde, Gana ainda estava ganhando de 1X0 dos Estados Unidos. 

Na sexta, minha mãe havia levado uma queda. Não quis ir ao hospital, mas, no sábado, ela tremia, se sentia mal, e preferiu ir. Entramos às 4 da tarde do sábado. Saímos às 10 da manhã do domingo. Foi uma queda de potássio. O normal é entre 3,5 e 5,5, e ela estava com 1,8. Foram duas bolsas de potássio, várias horas na emergência, para o nível chegar a 3,7.

Durante a primeira bolsa, ela estava tranqüila, paciente. Mas assim que soube que teria que receber mais uma bolsa, pois o nível do potássio ainda não estava aceitável, ela perdeu a paciência, ficou irritada, nervosa, e terminou por tratar mal a minha irmã, que veio de Feira de Santana assim que soube que ela iria pro hospital. Ficamos acordados a noite inteira. Pra mim, não fazia muita diferença do meu dia a dia. Tenho ido dormir somente de manhã desde que os ensaios de BAILEI foram cancelados por falta de grana (serão retomados na semana que vem). Mas minha irmã acorda todos os dias às 6 da manhã. Minha mãe dormiu muito pouco. O sono vinha, os olhos pesavam, mas ela, irritada, se recusava a dormir. 

Voltei pra casa, às 10, pensando se realmente vale a pena ela continuar com a químio. Sei que muitos pacientes pensam em parar com a químio por causa das reações e, logo depois da primeira sessão do segundo ciclo, ela falou em parar, e todos nós em volta dizíamos pra ela resistir. Mas a queda de potássio, muito provavelmente por ela não conseguir mais se alimentar direito há um bom tempo, me deixou muito preocupado. 

Há dois anos, pro mestrado, eu li um livro do filósofo da moda, Bauman. O livro, AMOR LÍQUIDO, é um doa mais populares dele e, nele, Bauman conta a história de um cara, não me lembro de onde, talvez francês, talvez poloneu, que mantinha um orfanato de crianças judias durante a segunda guerra. Quando os nazista tomaram a cidade onde ficava o orfanato, o cara sabia qual seria o destino daquelas crianças nas mãos deles: irem para os campos de concentração, passarem pelas piores degradações e talvez virarem cobaias para experiências científicas. Os nazistas não levaram nenhuma daquelas crianças porque, quando o orfanato estava prestes a ser invadido, o cara matou todas as crianças e se matou depois. E ele deixou escrito a justificativa: seres humanos devem viver, e viver significava, pra ele, viver com dignidade, e não apenas sobreviver, como animais irracionais.

A quimioterapia deveria ser pra que ela pudesse viver normalmente depois do tratamento. E, é claro, estava previsto que ela poderia passar por dias de náuseas e vômitos. Mas essas náuseas deveriam parar depois de 3 dias. Desde a primeira sessão, que as náuseas dela persistem. Talvez não mais pela químio, mas por ela, como um animal irracional, ter associado comer a vomitar e desenvolvido um medo de comer. Ela verbaliza isto várias vezes. Ela olha uma comida, diz que tem vontade de comê-la e, logo depois acrescenta: "Mas e se eu vomitar?" Ela tem medo, e esse medo tem se sobreposto à fome e à própria consciência de que ela precisa se alimentar para sustentar o corpo. Ela está reduzida à condição de irracional. E isto tem colocado a vida dela em risco. Não o risco de voltar a ter um câncer, mas um risco muito mais imediato. Se o potássio tivesse baixado mais, ela poderia ter tido uma parada cardíaca. 

Essa semana, pretendo falar com a oncologista dela. E quero levá-la a um terapeuta. Ela resiste a ir à terapia, mas nesse momento, acredito que ela precisa de uma terapia pontual, como uma cognitiva, pra tentar mudar a programação de sua mente, que tem preferido ficar irracional e sem dignidade. Enquanto ela estiver assim, ela não tem condição de tomar mais uma dose da medicação que dá os enjôos. E eu tenho medo que mais uma dose resulte, de verdade, naquilo que, desde a primeira sessão, ela repete quase como um mantra: "Essa químio vai acabar me matando". 

E, a essa altura, vocês devem estar perguntando por que o nome deste post é "a linha e o linho". Durante essa semana, que foi muito puxada, Artur esteve em Conquista. Foi passar o São João com a família. Neste domingo, ele voltou. E voltou exatamente num momento em que eu precisava de colo, de carinho, de aconchego, de um porto seguro no meio dessa tempestade que é ver minha mãe definhando, dia a dia, não pela doença em si, não pela quimioterapia em si, mas vencida pela sua mente que não consegue enfrentar o enjôo e comer, que não consegue lutar pela vida com dignidade, que prefere se entregar e se entrevar e se paralisar. Se há duas semanas ela falava em desistir da químio, ela agora diz em desistir da vida. E não é só um drama pra chamar a atenção. Ela me lembra aquela história de que os elefantes, quando pressentem que vão morrer, se desligam na manada e se recolhem pra esperar a morte. No olhos dela, a gente vê a revolta de querer estar viva, mas de não ter forças. E acho que ela realmente está achando que está esperando a morte. Não compreende que reagir e comer, mesmo com todo o enjôo, é a principal arma que ela tem, e uma arma tão simples. Nem água ela consegue mais beber. É um bicho. Ela tá vivendo como um bicho.

E eu tenho ido todos os dias pra casa dela, tenho procurado escutá-la, procuro dar carinho, mas também tento fazê-la entender que ela precisa se cuidar. E, como já disse, quando retomei o blog, tem sido pesado pra mim. E essa semana, com o São João, a cidade ficou praticamente parada. Sozinho em casa, fiquei mais tempo lá e praticamente só vinha pra casa pra dormir. Mas o sono demora a chegar, porque a tensão do dia fica. 

Hoje, depois de 18 horas na emergência do hospital, cheguei em casa exausto. Consegui me deitar às 13h. Artur chegou às 17:40. E foi meu aconchego.

À noite, depois que voltei de minha mãe e ele voltou do evangelho, vimos um episódio de A COMÉDIA DA VIDA PRIVADA, sobre a convivência de dois casais. Foi bom ver juntos. Foi bom poder estar juntinho, simplesmente curtindo um bom programa de tevê. Um alívio. E o episódio terminava com "A linha e o linho", de Gil. E eu escutava a canção e pensava: que bom estar junto com Artur hoje. 

Tava com saudade.



Escrito por Claudio Simões às 03h44
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ducentésimo nonagésimo primeiro dia - it's always sunny in Bahia

Nossa! Edu e Andréa ainda passam vez em quando por aqui, mesmo depois de dois anos e meio sem um post novo!

Fiquei feliz de ver suas mensagens. Quando escrevi o post anterior não achava que ninguém fosse ler. Não divulguei que tinha escrito. Na verdade, pensei mesmo em ver se ainda havia alguém que eventualmente entrasse pra ver se eu tinha escrito algo.  Tem algum mecanismo da internet que avisou a vocês? Enfim, entrei agora, vi as mensagens e me animei de me comunicar.

Hoje estou cansado, mas por uma causa feliz: estou ensaiando pelas manhãs. 

Ontem minha mãe finalmente completou o primeiro ciclo da quimioterapia (cada ciclo consiste em duas sessões: a primeira com dois remédios, incluindo o que causa os enjôos, e a segunda com um remédio só, que não causa enjôo nenhum). Era pra ela ter completado na semana passada, mas estava fraca demais pra isso. Completou nesta segunda e está animadíssima. Foi até ao shopping hoje, coisa que ela não fazia há muito tempo. Não estive com ela, hoje, pois tive que resolver coisas práticas durante a tarde e, à noite, tive que planejar o ensaio de amanhã. 

Esses ensaios chegaram de surpresa. Eram pra acontecer somente do meio de julho até meados de agosto. Fazem parte de um projeto de Tele-Teatro da TV Anísio Teixeira. Diretores montam um espetáculo - com duração de 30 minutos -, e esse espetáculo é transformado em um trabalho audiovisual por um diretor de tevê. Esse espetáculo que estou dirigindo deveria ser o terceiro produzido, mas ainda não conseguimos a liberação dos direitos da peça que seria a segunda e, daí, adiantaram a minha. Fiquei sabendo no fim da semana passada, sexta, justamente no dia que voltei a escrever aqui, e já começamos os ensaios na segunda. Já na terça, pela manhã, chegou a notícia de que a verba ainda não saiu, e que o trabalho teria seu começo adiado pro dia 5 de julho. Mas é quase daqui a um mês. Sentei com o elenco e decidimos continuar os ensaios essa semana, mesmo não sabendo quando vão nos pagar. Achei isso legal porque mostrou que o elenco está animado com o processo.

A peça que estou dirigindo se chama BAILEI NA CURVA, que, apesar de ser creditada a Julio Conte, é de autoria coletiva do grupo que a montou originalmente na década de 80 em Porto Alegre. A história começa em 64, às vésperas do golpe militar, e avança até a eleição de Tancredo. Muito bacana.

Beijos, meninos! Adorei vê-los aqui.

 



Escrito por Claudio Simões às 00h49
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ducentésimo nonagésimo dia - de cara com a impotência

 

Minha sobrinha foi assaltada na noite de ontem. Eu estava na casa de minha mãe, onde minha sobrinha mora, sabia que ela, minha outra sobrinha e uma amiga vinham para perto de minha casa e, como provavelmente meu pai me levaria pra casa, eu pensei em dizer a elas que esperassem uns minutos, que elas teriam uma carona. Mas, quando entrei no quarto de meus pais, meu pai estava sentado junto à cama, com a cabeça abaixada, apoiada nos braços apoiados no espaldar da cama. Meu pai está cansado. Cansado por, há anos, não dormir direito; cansado por, há meses, ter que cuidar da esposa doente, minha mãe; cansado talvez por estar vivo há quase 73 anos. Está cansado. 

E, quando eu entrei e o vi naquela posição, pensei em não vir pra casa com ele, em pedir a meu irmão, que estava de visita na casa de meus pais. Mas, antes disto, fui falar com meu pai, tocar em seu ombro, escutar a queixa de seu cansaço. É o que eu posso fazer. 

E, enquanto falava com ele, minha mãe, adoentada, voltava da sala com Artur e começou a se queixar da irritação de meu pai horas mais cedo. Ela talvez não perceba que ele está cansado. Talvez não compreenda que a irritação é a única forma que ele encontra de expressar que está cansado. Ela também está cansada. Quinze anos de artrite, quinze anos de dor, agravada por uma inflamação no ciático, uma desgaste na bacia, uma herpes zoster no começo desse ano, um câncer de pulmão detectado logo depois, uma cirurgia, uma sessão de quimioterapia, que a devastou. Ela está cansada. 

E, enquanto eu ouvia ela reclamar de meu pai, minha sobrinha entrou no quarto, se despediu de todos, me deu um beijo e saiu. Pensei novamente em dizer: esperem um pouco, eu e Artur já vamos pra casa, alguém vai nos levar, cabe todo mundo apertado, mas não sabia quanto tempo ainda seria necessário pra escutar minha mãe, escutar meu pai, acalmar um pouco seus corações - se é que isso é possível -, e deixei que elas fossem. Poucos minutos depois, saí do quarto e vi as três garotas no quarto. Pensei: elas ainda não saíram? Eu achava que elas tinham saído.

E elas tinham saído. Tinham saído e, logo na esquina, foram abordadas por dois rapazes que levaram o celular de minha sobrinha. Ela pediu que eles deixassem pelo menos o chip do celular e um deles socou-lhe na boca. Elas voltaram pra casa, minha sobrinha com o queixo inchado, e o coração cheio de ódio e raiva pela impotência, por não ter a força para bater de volta, por se sentir indefesa.

Eu já fui assaltado algumas vezes quando era mais novo e mais franzino. Não sei se nunca mais aconteceu nada por parecer menos franzino agora - mas ainda o sou -, ou por ter mais experiência e procurar não estar em lugares e situações mais fáceis de isto acontecer, ou simplesmente por sorte. Mas já fui assaltado muitas vezes e sabia muito bem o que ela estava sentindo. E me doeu saber que não poderia fazer nada pra acalmar seu coração naquele momento. Doeu saber que não poderia tirar dela aquela terrível sensação de impotência. 

E me senti, eu mesmo, impotente.

Eu estou cansado.

 

 


Esse blog já foi minha forma de jogar uma âncora no mundo. Me ajudou a juntar meus pedaços. Depois, quando não pude mais ser aberto, perdeu o sentido, e eu fui perdendo o interesse. Agora, preciso de uma nova âncora. Estou de volta.

 



Escrito por Claudio Simões às 04h35
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ducentésimo octagésimo nono dia - mais uma

Terminei mais uma peça, aquela que deveria ter ficado pronta há duas semanas. Há duas semanas, ela ficou quase pronta e faltava um final. Fiquei a madrugada deste domingo trabalhando nesse final e ele veio. Não sei ainda o que o diretor vai achar, mas eu gosto. Terminando mesmo esta, começo já outra, novamente em parceria, uma parceria para muitos inusitada. Os trabalhos aparecem. Devo fazer um trabalho em cidades do interior durante esse primeiro semestre, enquanto rola o mestrado.

Estou no Rio. Cheguei aqui com uma chuva de granizo e muitos blocos na rua. O carnaval daqui atrapalha mais que as festas de largo de Salvador. Deixei de ver dois espetáculos por causa dos congestionamentos causados pelas bandas.

Volto terça.



Escrito por Claudio às 06h18
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ducentésimo octagésimo oitavo dia - assim se passaram dois meses...

... sem escrever no blog, sem ler constantemente blogs, sem o menor ânimo pra isso e pra outras coisas também.

Nesses dois meses, a casa esteve constantemente cheia, mas não foi por isso que eu parei de escrever, apesar de realmente atrapalhar um tanto, já que o computador conectado à internet está no quarto em que as visitas dormem. Falando nisso, daqui a pouco, chegam mais quatro.

Mas não importam tanto as visitas. Quando pude me encontrar sozinho com o computador, passei mais tempo fuçando jogos do que escrevendo alguma coisa. Tudo bem que escrevi um piloto para uma sitcom que pode não sair e que, oficialmente, eu não estava escrevendo. Mas tenho uma peça pra entregar há meses, com pauta marcada para março, e até agora só tenho 11 páginas a revisar e alguns textos dispersos feitos pelo parceiro, que preciso organizar e juntar tudo e formar um conjunto coerente. Alguém pode se (me) perguntar: o parceiro não pode ele mesmo organizar e juntar tudo e formar um conjunto coerente? Pode. Só que, se ele já escreveu a parte dele, se eu não escrever a minha e deixar isso tudo pra ele fazer, cadê a parceria? De qualquer forma, o texto tem que estar pronto até sábado, às 2 da tarde, para uma leitura com o diretor, o ator (é um monólogo) e a produtora. Como já estamos na madrugada de quinta, o tempo urge. Mas agora eu vou dormir. Ou seja, farei tudo corrido em duas madrugadas e estarei quase morto na hora da leitura. Como eu já disse aí em baixo, às vezes a cabeça funciona melhor na exaustão.

Terça-feira, eu viajo pra São Paulo. Cinco dias em Sampa e uma semana no Rio. Volto para o carnaval? Animado? Ainda não. Quase passei o reveillon num show de Ivete Sangalo, mas os ingressos sumiram. Eu desconfio que eu joguei fora por engano numa arrumação, mas pode ter sido alguma outra coisa. Porém, depois de dois dias de tensão procurando os ingressos (não era só o meu, tinha o de Artur e de dois amigos), dei graças a Deus de ter perdido a festa e passei o reveillon em casa, orando!!!!! E achei ótimo! Não tô no clima para multidões.



Escrito por Claudio às 04h22
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ducentésimo octagésimo sétimo dia - senhas

Às vezes a cabeça funciona melhor na exaustão.

Há dois meses, terminei uma peça nova, em parceria com Margareth. Na peça tem um monólogo de um personagem (a peça foi escrita de uma forma bem interessante: eram duas personagens, um homem e uma mulher, e eu escrevia as falas do homem e Margareth, as da mulher, e as cenas iam então sendo construídas sem que um soubesse o que o outro ia escrever e tendo que responder ao estímulo e à provocação do outro; era uma escrita improvisada). Continuando, na peça, tem esse monólogo do Rodrigo (o personagem que eu escrevi), que fiz bem inspirado e todo mundo se emocionava. Havia, porém, dois pequenos problemas. Um deles, eu já sabia como resolver. O outro me incomodava, mas eu nunca tinha parado pra tentar resolver. Na verdade, não parei pra nada, nem pra re-escrever o que eu já sabia como ia re-escrever. Pensava nessa pequena mudança com preguiça.

Nesta sexta, eu fiz a prova de seleção pro mestrado em Letras. Sim, fiz de novo. Passei em 2004, mas como não cursei nenhum semestre, perdi a vaga e tive que me submeter às provas novamente. Passei os últimos dias enfurnado em casa quase que o tempo todo, estudando. A prova era às nove da manhã e coloquei o despertador pras sete e meia. Me deitei logo depois da uma da manhã e... não dormi.

Rolei na cama, vim pro computador, joguei no msn (sou viciado em jogos...), e voltei a me deitar quase quatro. Continuei fritando na cama. O sono resistia a vir e, nos momentos em que ele tentava chegar, o ronco de Artur me assustava. Claro que ele tava roncando como todas as noites, mas ontem parecia mais alto do que nunca. Às cinco, peguei o meu colchão e vim dormir no quarto do computador. Todas as portas fechadas, o sono, leve, veio. (Pra vocês verem como são as coisas. Quinta foi a segunda vez que eu assisti a um capítulo de DUAS CARAS. E a minha cabeça tava tão cheia de teorias e contra-teorias que não é que eu acabei sonhando com a novela o tempo todo? E justo com Marília Gabriela! Ou melhor, com a Dona Guigui.)

Acordei às sete e trinta e cinco, me arrumei e fui fazer a prova. Foi horrível, como toda seleção. Você fica duas horas respondendo a primeira questão e, quando parte pra segunda, na qual você quer dizer um monte de coisas, alguém avisa: "vocês só têm mais uma hora".  Você já começa a correr. Quando vem o aviso de que falta meia-hora, a mão começa a paralisar, as letras viram garranchos, os pensamentos não se conectam mais, você percebe que ainda nem chegou no tema central da questão e sua resposta fica parecendo uma redação de quinta série. 

Saímos da prova tão desorientados, eu e George (que também concorre à vaga), que fomos desanuviar a cabeça na casa de Celso, vendo UGLY BETTY. De lá, fui ver meus pais no shopping, passei na médica pra ela ver meu pinto (que coisa bizarra! a herpes estourou, dessa vez na glande) e comecei a noite na exposição de uma prima de minha mãe que está se formando em Belas Artes. Vim pra casa, pensando em descansar, mas eis que a Feira da paróquia, no terreno aqui ao lado, havia começado. Rolava um show, o maior cheiro de churrasquinho invadindo o apartamento, e eu acabei assistindo a O SISTEMA. Depois, vim ver e-mails, fucei o orkut, li blogs que nunca mais tinha lido por causa da preparação para a prova e, finalmente, resolvi tomar banho pra dormir. Como eu sempre tomo banho escutando música, fui escolher o que colocar, e me veio na cabeça MENTIRAS, de Adriana Calcanhoto (na época, ela usava um T só). MENTIRAS é aquela "Nada ficou no lugar..."

Botei o disco e, como o dvd player (meu amplificador tá quebrado e tô ouvindo música na tevê) já toca automaticamente a primeira música, começou a tocar SENHAS, que dá título ao disco. E, passando o fio dental e escovando os dentes, que resolvi fazer antes do banho, SENHAS me deu a senha. Não somente a canção, mas o disco todo. O conceito do disco e algumas letras que ali estão. As canções iam tocando e eu chapando. Deixei o banho de lado e fiquei ouvindo e pensando. Pensei em tudo o que eu quis escrever e não escrevi na prova. Pensei no que eu queria escrever no monólogo da peça, mas que não tinha descoberto ainda. "O meu amor pelas misérias me leva, me trouxe, roça o que interessa e fez de mim alguém que eu sou hoje". Onde tava o alguém que eu sou hoje, onde tava o que me interessava naquele monólogo?

O que me interessava tava vindo à cabeça, mas eu sabia que precisava dormir e pensava e deixar tudo pra amanhã. Mas amanhã a casa vai estar cheia, amanhã talvez não tenha a mesma premência de hoje, e as palaras ditaram que queriam sair.

O disco terminou, "Lanço o meu olhar sobre o Brasil e não entendo nada", botei pra repetir e liguei o computador. Abri o arquivo da peça, fui no monólogo e fiz o trabalho. Agora as coisas estão ali.

E como a cabeça não parou, ainda não tomei o banho.



Escrito por Claudio às 02h23
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ducentésimo octagésimo sexto dia - carvalho

Fiquei sabendo no começo da tarde que Vanderlei tinha morrido. Vanderlei era hiv+. Mas morreu do coração.

Quatro pessoas me deram a notícia da morte dele. Quatro pessoas, separadamente. Das quatro, três começaram a rir. É engraçado ser hiv+ e não morrer de aids.

Vanderlei assumiu publicamente que tinha o hiv há alguns anos, num dia 1º de dezembro. Eu me lembro que eu soube disso através de Celso (o único que me deu a notícia da morte de Vanderlei sem rir), na entrada para a platéia no antigo Teatro Vila Velha, bem antes da reforma.

Eu não tinha muito contato com Vanderlei até então, e tive bem pouco depois. (Nem sei se o "Vanderlei" dele era assim mesmo que se escrevia.) Ele fez a assessoria de imprensa de VINGANÇA na primeira (e totalmente desprovida de grana) temporada. E foi meu aluno na Sitorne em pouquíssimas aulas (desistiu logo depois do curso). Sem contar que foi na casa dele, numa festa, que rolou um primeiro beijo que resultou em namoro nos idos de 89...

Enfim, estive muito pouco com Vanderlei, mas teve uma noite que me fez ter carinho por ele desde então. É que, além de jornalista, Vandelei inventou de ser cantor. E, no único show dele que eu fui, eu chorei muito, chorei a alma. O repertório me tocou profundamente e, no meio das canções, havia uma versão de LA MIA STORIA TRA LE DITA (canção de Gianluca Grignani, que eu devia conhecer das rádios, mas que me chamou a atenção quando eu escutei tocando numa barraca de praia na Boca do Rio, numa caminhada matinal, há muitos anos). Era uma versão de Paulo Sérgio Valle, à qual eu nunca tinha dado atenção, talvez por um preconceito com versões, talvez por um preconceito com José Augusto, que era quem cantava. Mas, no show, aquela letra me tocou profundamente e fiquei perplexo. Depois do show, fui jantar com Vanderlei e os músicos na Cheiro de Pizza, eu falei da minha emoção com o show e, particularmente, com aquela música. E ele me disse que pretendia gravar o show e que me daria uma cópia da música quando o fizesse. E toda vez que eu o encontrava, eu cobrava a gravação. (Ele finalmente gravou o disco, anos depois, mas nunca mais o encontrei pra "cobrar" a minha cópia.)

Não fui ao velório e provavelmente não irei à cremação, que será agora pela manhã. Mas foi inevitável pensar nele durante o dia. Sempre com carinho.

Pra completar, uma das poucas vezes em que conversei mesmo com ele, além do dia do show, foi em outro show, de Simone, na Concha Acústica. Eu nunca tinha visto um show dela, e havia muito tempo que ela não fazia show em Salvador. E encontrei Vanderlei lá, empolgadíssimo e emocionado, me contando o quanto ele adorava aquela mulher.

Algumas horas atrás, ligo a tevê, e lá estava ela, Simone, cantando num especial da Globo em homenagem a Gonzaguinha. Cantava SANGRANDO. E cantava lindamente. Fiquei vendo o show e não pude deixar de pensar pra ele: puxa, Vanderlei, olha o que você foi perder.

Mas agora eu penso que ele não perdeu. Ele também viu.

 



Escrito por Claudio às 04h47
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ducentésimo octagésimo quinto dia - tela quente

A manchete principal da primeira página do uol parece fazer um macabro resumo do cinema popular brasileiro dos anos 2000: "Operação do Bope deixa 2 mortos na Cidade de Deus"

Escrito por Claudio às 10h27
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ducentésimo octagésimo quarto dia - da série "eu tenho medo de bárbara abramo"

Previsão de Bárbara Abramo para o signo de leão em setembro de 2007:

Finanças
Mantenha as finanças sob controle nos primeiros dias de setembro. Este mês pode guardar surpresas para você neste setor. Com o eclipse solar da Lua nova, muitas certezas podem ir por água abaixo em relação ao seu dinheiro. Especialmente em relação às fontes por meio das quais você ganha o que o sustenta ou mantém. Mudanças em outras áreas poderão também refletir no seu orçamento. Afinal, Saturno sai deste mês de seu signo e se dirige lentamente para Virgem, o signo que rege seus assuntos financeiros, anunciando um tempo em que a razão e a disciplina serão seus melhores mestres.

O trânsito de Saturno em Virgem é, de longe, o fato astral mais importante do mês no setor financeiro. Seu simbolismo abarca a amplitude do seu presente material. Do uso mais racional e discriminado de seus dotes intelectuais, manuais e analíticos, passando pelo que você ganha no emprego ou pelo que recebe de seu negocio próprio, tudo terá de ser revisto e reestruturado. Saturno levará embora o que o tempo destrói, e a você sobrará o que é essencial e está no seu espírito. Alguns leoninos sofrerão revezes da sorte financeira até outubro de 2009 para descobrir que resgataram valores essenciais e muito mais confiáveis.
Outros apenas precisarão, desde já, colocar ordem no orçamento, enxugando os gastos, diminuindo os impulsos consumistas, revendo seu conceito de posse. Do automóvel a festas e eventos sociais, passando por jóias e dinheiro guardado, tudo precisará ser reestruturado em ordem de importância e de prioridades.

Meu contrato, que encerrou no dia 15, não foi renovado.



Escrito por Claudio às 23h28
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ducentésimo octagésimo terceiro dia - Não eram só as misses que liam O PEQUENO PRÍNCIPE.

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". É mais ou menos essa a frase que a raposa diz pro Pequeno Príncipe, e que tem sido repetida e citada mundo afora desde a publicação das aventuras do principezinho de cabelos amarelos encontrado por um aviador acidentado.

É uma frase bonita, de efeito, parece aqueles ensinamentos de sábios chineses. Mas na verdade não passa de uma das frases mais terríveis já escritas. Aquela raposa era uma escrota. Uma escrota. Porque, através dessa frase de efeito, de muito efeito, ela consegue instalar no Pequeno Príncipe (e em todos os leitores que tivessem a obra de Saint-Exupéry nas mãos) um dos sentimentos mais devastadores que existem: a culpa.

Uma escrota!

Quanto tempo eu passei sem conseguir me separar por causa dessa raposa? Depois da separação, quanto tempo eu ainda passei me sentindo responsável, me culpando pela infelicidade do outro, me culpando por isso ou por aquilo que estivesse acontecendo de ruim com a criatura. Levei mais de dois anos de terapia pra finalmente não me sentir mais responsável até mesmo por todos os problemas que a pessoa já carregava desde muito antes de me conhecer. Tudo culpa da raposa.

E acha que é só na seara romântica que aquela degenerada quadrúpede vivia (e ainda vive - é só bobear e não estar atento) me pertubando o juizo? Nada. Era em tudo.

Aquela raposa tinha que ser levada para o campo na Inglaterra, devia ser perseguida pelos cães, abatida, esfolada. 

E ainda seria pouco. 

 



Escrito por Claudio às 02h35
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ducentésimo octagésimo segundo dia - 20 anos

Ontem eu completei 39 anos.

Acordei com uma forte dor na coluna, que, mais do que um sinal da idade, é um sinal de que não estou dormindo no colchão certo. Tá na hora de comprar um colchão de molas.

Mas aniversário é sempre aniversario e é data de lembrar certas coisas, principalmente que, perto do meu aniversário de nascimento, há outroa aniversários que considero importantes pra mim (e olha que aqui nem estou falando dos aniversários da família, que são muitos).

No dia 6 de agosto (aniversário de meu irmão Danilo), fez 20 anos que conversei com Celso pela primeira vez. Apesar de já ver Celso pela faculdade de Arquitetura desde dezembro de 1985 (quando fizemos, na mesma sala, o teste de habilidade específica para o curso), só tive coragem de falar com ele no dia 6 de agosto de 87, dia do segundo teste pro III Curso Livre da UFBA. Este aniversário é importante pois que Celso é meu melhor amigo e é bom completar 20 anos de amizade.

Já hoje, dia 10, faz 20 anos que começou o tal Curso Livre. Tanto eu quanto Celso passamos e, dentre os colegas, fiz vários amigos queridos. Mas o mais importante é que, naquele dia 10 de agosto de 87, eu estava definitivamente dando o rumo que eu queria na minha vida.

Quando, em 88, eu decidi que faria Escola de teatro, encontrei no ônibus uma ex professora do meu Curso Livre (que gostava muito de mim) e ela me disse que não achava que eu tinha o perfil pra fazer a Escla, que eu deveria continuar em psicologia, que a carreira exclusivamente artística demandava certos esforços, certas abdicações, que ela não ahava que eu fosse capaz. "Se fosse Teresa", dizia ela, referindo-se a Tereza Araújo, uma atriz brilhante e pessoa iluminada do nosso Curso Livre, "Se fosse Tereza, eu diria, faz sem medo. Tereza tem o perfil. Você, eu não sei."

Era interessante notar, na fala da professora, a velha questão do talento verus a vocação. Para Hebe, a professora, eu tinha o talento. Ela gostava de mim enquanto ator. Mas ela achava que eu não teria a vocação de passar por perrengues econômicos, de viajar sem infra pra se apresentar no interior, arrer teatro que não tem faxineiro, etc.

Quando ela me disse aquilo, verdadeiramente preocupada, eu só pensava: eu posso. A minha vontade de ser artista foi muito maior do que o medo de não dar certo. E acredito que isso foi um dos motivos que fizeram dar muito certo. Ser artista, como diz Buarque, "é comer um fiapo, é vestir um farrapo". Passei minha fase de só ter dinheiro pra comer sardinha. Passei minha fase de não poder comprar uma roupa decente. Passei minha fase de achar que precisava ter um emprego público (e isso foilogo ali). Mas nunca pensei em desistir.

Eu não vou desistir.

Apesar de saber que a minha vida vai ser marcada por muitas mudanças, já que os números apontam pra isso, os astros apontam pra isso, e toda psicologia, todo texto religioso que leio me ensinam que é preciso encarar as mudanças, apesar disso, apesar de saber e tentar me preparar pra encarar com alegria essas mudanças, eu sei que eu não vou desistir. Eu sou um artista, não tem jeito. E isso é uma dádiva e uma maldição. Ao mesmo tempo. E não tem como sair de mim.

Eu sou um artista.

Eu sou um artista e não uma gaivota. (Leiam Tchekov)

Ou, sim,  uma outra gaivota, a pop Fernão Capelo, querendo voar mais alto, querendo se diferenciar das outras gaivotas, como todo artista quer se diferenciar. Eu sou um artista, eu sou uma gaivota, eu sou um mutante. Faz vinte anos.


E Tereza continuou atriz. Mas entrou e se formou em Psicologia. Mora agora na Inglaterra.
E fez vinte anos também que levei meu primeiro soco na cara. Mas isso é outra história.

Escrito por Claudio às 04h48
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ducentésimo octagésimo primeiro dia - de corpos e almas

Comecei, pela quarta vez, a ler A ALMA IMORAL. Pra quem não sabe, é o livro de um rabino chamado Nilton Bonder, que ganhei de natal de uma amiga que tinha visto o espetáculo homônimo e ficara encantada.

Indo pra Salvador, no natal, comecei a ler no avião, mas estava tão cansado que dormi quase que o vôo todo. No carnaval, a mesma cena se repetiu. E entre um e outro, às voltas com a novela, eu nem toquei no livro. Tentei novamente em outra viagem e cheguei ao fim da introdução. Mas, mais uma vez, deixei o livro de lado até que, na sexta antes da viagem a São Paulo, assisti à encenação. A atriz, Clarice Niskier, pinça momentos importantes do livro e diz em cena. Não é uma peça, não é um drama propriamente dizendo. Mas é envolvente, instigante e encantador. E é claro que, no dia seguinte, recomecei a ler o livro. Dessa vez, apesar de todo o cansaço no avião, depois de horas esperando, avancei bastante na leitura.

No livro, o rabino fala muito em "corpo" e "alma", e essa última semana foi também marcada por essas duas palavras.

CORPO: Fomos na sexta-feira à exposição CORPO HUMANO, na Oca do Ibirapuera. Corpos humanos verdadeiros (todos chineses), preservados com uma técnica moderna, que faz com que o que vemos seja o mais próximo de um corpo, digamos, fresco. Não vou dizer que achei bonito. Os músculos cortados e expostos lembram bifes crus. A exposição inteira nos lembra sempre: você é um animal. Mas tem uma parte absolutamente fascinante: o sistema circulatório. Eles conseguiram, com a tal técnica, preservar somente os vasos sanguíneos num corpo. É impressionante ver a distribuição dos vasos pelo corpo inteiro. É lindo.
ALMA: Um dia antes, fomos ao Museu da Língua Portuguesa pra vermos a exposição sobre Clarice Lispector.

CORPO: Muito, muito frio em São Paulo. Tive que comprar ceroulas. E guarda-chuva! E cheguei a usar 4 casacos simultaneamente. O frio foi intenso até a nossa partida. E ainda tivemos que ficar uma hora numa fila, do lado de fora do aeroporto, porque a nossa companhia não tinha guichê prórpio em Guarulhos (o vôo ia sair de Congonhas, mas foi transferido).
ALMA: Era verdadeiramente um frio de gelar a alma. Não fazia tanto frio desde 1991. E eu acho que eu peguei esse frio de 91 lá em São Paulo... O tempo voa. E o nosso avião, graças a Deus, também.

CORPO: Comida. Tivemos algumas experiências ruins, mas foi muito bom ter comido no Thai Gardens, no Mestiço (como sempre), no café V. da Livraria Cultura (que pãozinho de queijo maravilhoso) e no Gopala Asian Flavors.
ALMA: A pequena lição do chef do Gopala Asian Flavors sobre a comida.

CORPO: Artur tirou um quisto enorme das costas. Estamos em Vitória da Conquista (chegamos no domingo). A irmã dele, Joane, cirurgiã, acompanhou a cirurgia. Parece estar tudo bem. Ficamos só nós dois esta noite, na casa dela, porque ela está de plantão. Agora há pouco, fui ajudar Artur a tirar a camisa e vi que estava escorrendo sanngue do curativo. Pelo telefone, Joane me deu instruções do que fazer. Depois, botei Artur pra dormir, lavei a camisa de sangue (a água está gelada, Conquista também é frio pra caralho!!!), e estou esperando dar quatro e meia pra dar o antibiótico que ele está tomando.
ALMA: Desde que eu cheguei aqui me deu uma tristeeeeeeza... Quero calor!



Escrito por Claudio às 02h40
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ducentésimo octagésimo dia - Artur e o Cramulhão

Artur está de férias. E, como todas as pessoas que entram em férias, Artur não deixou de ir ao trabalho. Nem um dia sequer.

Mas neste sábado, mal influenciado por mim, que comprei uma passagem para São Paulo no nome dele, Artur rumou ao Aeroporto Internacional Lulu Magalhães, em Salvador. Talvez por ter concordado em ficar uma semana das férias longe do trabalho, talvez pela audácia de querer viajar bem no dia do enterro do Cabeça Branca - enquanto meia Bahia chorava e a outra ria -, talvez pelas duas coisas, Artur foi castigado. Castigo divino, com direito a intervenção do Didi. Não o Renato Aragão, mas o Diabo, o Capiroto, o Senhor das Trevas, que atendeu a um pedido de Deus e foi perturbar Artur no seu dia de viagem.

Pra preparar o espírito da vítima espírita, Didi (apelido carinhosamente dado por sua eterna noiva Naja, a cobra) resolveu dar sinais da sua existência. Ou melhor, resolveu dar um sinal: seu número estratégicamente estampado na etiqueta de preço do pacote de lenços umedecidos na farmácia da rodoviária, digo, do aeroporto.

Como bom discípulo de Paris-Hilton-antes-de-ser-presa, Artur nem olhou pra etiqueta com o preço. Simplesmente pegou o pacote e foi pro caixa. No caixa foi que ele percebeu a marca do Chifrudo estampada na tela indicando o total a ser pago: R$ 6,66.

Como bom discípulo de Priscila Capricci, Artur deveria deveria ter levado a sério o sinal, mas preferiu brincar e bradou: "Tá amarrado e repreendido!", causando espanto e furor na moça do caixa, discípula de Gretchen, a rebolativa cantora do grande hit "Jesus é rei!" ou "Melô do Piripiri". A moça viu o número do Demônio na tela e aí foi ela quem bradou, porém de todo o coração, "Tá amarrado e repreendido!" Como a fé da moça nas mágicas palavras era genuína, ela cumpriu normalmente seu dia de trabalho e voltou pra casa feliz por ter conseguido se livrar do mal. Já Artur, que zombou do poder daquelas palavras, teve seu castigo: vôo atrasado.

O castigo de Artur repercutiu no Rio de Janeiro e o meu vôo também atrasou.

Deveríamos ambos chegarmos em São Paulo ao meio dia. Mas o mau tempo em Porto Alegre e um problema nos equipamentos em Belém fizeram com que os vôos em todo o Brasil ficassem atrasados. Com a visão nublada pela lágrimas por ter que ficar uma semana de férias longe do trabalho, Artur só foi perceber que aquele preço daqueles lenços umedecidos tinham sido um sinal tarde demais: já estava havia horas esperando pelo vôo que, finalmente chegou. Às cinco e meia da tarde, Artur chegava a São Paulo, em Guarulhos. A essa hora, estava eu prestes a finalmente embarcar também. Cheguei em São Paulo às sete e meia da noite, mas como Artur estava me esperando no aeroporto, só pra aumentar o castigo dele, as malas chegaram bem depois às esteiras e só consegui sair com a minha mala de roupas às oito e quinze. Tínhamos dois ingressos para assistirmos uma peça às nove.

Fomos rapidamente para o carro do meu irmão e lá fomos nós rumo ao teatro. Quando meu amigo (que estava na porta do teatro com os ingressos na mão) me ligou e disse que dois outros amigos estavam lá e não tinham ingressos, achei mais prudente desistir do teatro. Fomos com meu irmão, minha cunhada e meu sobrinho mais velho para um rodízio de comida japonesa. Lá, mais espera, restaurante lotado. Quando finalmente sentamos e comemos, parecia até que a maldição tinha acabado. Qual o quê! Primeiro que, no dia seguinte, Artur amanheceu com sintomas de intoxicação alimentar. Segundo que, já alimentados, fomos para o hotel onde sempre nos hospedamos aqui em São Paulo e... não tinha vaga. 

Circulamos vários outros hotéis e não tinha vaga. Até que encontramos uma vaga no Tulip Inn (onde fiquei com minha mãe e meus irmãos na época em que minha avó faleceu). Como o preço não era muito atraente, resolvemos que valia a pena mais uma tentativa em outro hotel perto. Fomos pro outro hotel. Antes de Artur (que era quem descia sempre pra perguntar) voltar com a resposta, já sabíamos que não ia rolar. No carro ao lado, uma garota esperava e, quando Artur entrou no hotel, um rapaz com a cara desamparada saía e avisava à moça do carro que nada feito. 

O rapaz entrou no carro dele e, no nosso, nós comentávamos: eles vão procurar no Tulip Inn! E lá vinha Artur com a cara triste, andando a passos lentos pelo desânimo, e o rapaz ligando o carro. Todos no nosso carro gritam pra Artur se apressar, mas tentando não deixar claro pro casalzinho que a gente sabia onde tinha uma vaga! Artur, desanimado, parecia ainda mais lento. Nem bem ele entrou, meu irmão arrancou com o carro e conseguiu sair na frente do rapazinho.

Quando voltamos para a frente do Tulip Inn, já havia outro carro - branco - parado, provavelmente pegando a nossa vaga. No carro branco, o sinal irônico do Cramulhão. A placa do carro era 6660. Estava ali a assinatura da Besta-fera, como que rindo da gente.

Mesmo assim, lá foi Artur de novo para a portaria. Nós no carro, orando silenciosamente, pra Deus ter piedade do nosso querido irmão que ousou viajar a passeio nas férias. E Deus teve: havia várias vagas. Mas, pra tudo não terminar sem susto, meu cartão de débito foi recusado. O cartão da outra conta também. Só no terceiro cartão foi que conseguimos pagar a diária e subimos pra um merecido descanso... e uma boa hora de paraíso.



Escrito por Claudio às 02h16
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ducentésimo septuagésimo nono dia - após longo e tenebroso inverno...

Estamos no dia 4 de julho e junho foi embora sem que eu escrevesse nada no blog.

Um pouco de melancolia, um pouco de ansiedade, um pouco de preguiça, e nada de querer escrever.

Estou há quase um mês em Salvador e deveria - poderia - estar aproveitando o tempo pra escrever coisas que querem que eu escreva, mas estou resistindo. Tem coisas que eu quero escrever, mas também estou resistindo. Pra completar, a pensão de Tia Celina tá cheia, com um hóspede ocupando o quarto do computador. Pra ficar aqui de madrugada, tenho que pedir pro hóspede dormir na sala. Não é de bom tom.

Assim, aproveitei pra ver séries que comprei os boxes, mas não tinha visto ainda. OZ, GREY'S ANATHOMY, TWIN PEAKS. Terminei esta tarde de ver a segunda e última temporada de TWIN PEAKS. Não dá pra fugir do lugar comum: estraaaanha...

Hoje, despachei o hóspede pra sala pra tentar escrever uma sinopse pra um espetáculo. Mas estou aqui gravando Clara Nunes e escrevendo no blog. Preguiiiiça...

 



Escrito por Claudio às 02h27
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